Escrevo essa carta para dizer tudo aquilo que você não conseguiu perceber enquanto ela passava por um grande terremoto em seus pensamentos e sensações mais sublimes que a ansiedade e o nervosismo não foram capazes de poupar.

É possível que não tenha lhe parecido algo tão verdadeiro, por assim dizer, mas dentro de sua alma um desconforto quase físico tomava conta de seu ambiente invisível. Eu estava lá, ao seu lado, mas ela também não percebia. Uma pena, isso é fato, pois ela sempre esteve certa de ter toda uma vida de alegrias pela frente e, não mais que de repente, o chão desapareceu sob seus pés pequenos.

Ansiedade e nervosismo constante são como monstros sempre à espreita, apenas aguardando o momento certo de se revelar nas sombras disformes das muretas do destino. Chegam, dilaceram, impedem o ar de fluir decentemente pelos seus pulmões já comprimidos pelo medo de vivenciar isso mais uma vez. E vão embora - como se nada fossem.

Eu estava lá, sabe? Mas não era possível me ouvir e eu nem mesmo podia envolvê-la em meus braços, dando-lhe mais segurança. Então ela ficou lá, imóvel, sentindo os nervos fora do lugar, com uma vontade de parar tudo aquilo que ela nem mesmo sabia nomear. Um cômodo escuro, frio e estreito povoava o seu peito, apesar da casa aconchegante, de temperatura amena e luminosidade agradável em que ela vivia. Eu estava lá, como você já sabe, correto? Mas, ainda assim, ela não me via, nem ouvia e tampouco podia aceitar meu abraço.

Com o passar dos meses ela entendeu o que tudo aquilo significava. Então passou a abrir suas janelas feitas de madeira leve, para que a luz do sol e a brisa matutina enfim pudessem, ainda que aos poucos, voltar a habitar o seu lar - por completo. Os dias ruins não desapareceram totalmente, por isso, vez ou outra, ela ainda sente como se um novo buraco estivesse tentando puxá-la. Um buraco escuro, frio e estreito, assim como a decoração antiga de sua alma.

O chão já não some mais sob seus pequenos pés, sabe? Ela tem aprendido a apoiar sua mão de dedos finos em tudo o que lhe passa segurança, e também tem conseguido enviar um ar mais límpido para os seus pulmões cansados de passar aperto - independente da podridão exalada no ar já cinza da cidade grande em que ela vive.

Agora ela já me nota e percebe minha existência. Pude abraçá-la, enfim, de uma vez. Eu sou sua esperança adormecida que, digo com orgulho, pouco a pouco voltei a viver.

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Essa é uma tentativa de crônica que escrevi para um trabalho da faculdade. Não faço a mínima ideia se o texto se encaixa completamente no estilo, mas eu fiquei muito orgulhosa por tê-lo escrito. ♥

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